domingo, 20 de julho de 2014

Êxodos

As ausências..., dos que já se foram, dos que aqui estão, dos que nem chegaram, dos que não chegarão.
Todos somos órfãos, crianças no escuro tateando o colchão em busca de um pedacinho do corpo do pai. É sempre noite onde estamos quando metafísicos, como somos.
As presenças realmente importantes são raras, efêmeras, perecíveis. Em um minuto podem transformarem-se em partida.
Aproveitemo-nos.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Flor

Clarinha, tez alva que até um delicado toque carinhoso cunharia lividez.
Se o branco é a soma de todas as cores, todas elas desapareceram. É o acaso labutando contra? Ou a favor? Cercear o impossível é mais doído que apenas vislumbrá-lo.
Mas o olhos... Hipnotizam a ponto de nunca lembrarmos a cor de sua delicada claridade; sim, são claros - disso eu lembro. 
Sensibilidade emocional vestida com a mais adequada delicadeza física. 
Se a conheço? - mal e suspeito como a mim mesmo. Se a desejo? - mais do que todos os amanheceres. 
Se ela saberá? - somente com muita perspicácia. Das cicatrizes emocionais, os queloides concentram-se na alma - diminuta por enrugamento. 
O que me consola é saber que vê-la não quer dizer que exista. 

sexta-feira, 11 de julho de 2014

11/07/2014

[De 27/01/2011] 

Agora, respeito qualquer dos meus sentimentos
Quero dormir com o medo, oscular meus receios 
Saudade carnal tenho da angústia, ah, angústia...
Visto-me de preguiça para suportar a labuta

Acalento meus vícios, os quero bem tratados
Cantarolo o meu ódio em sublimes quiálteras
Divido o mundo graças ao meu onipresente ciúme
Tomo-o de volta respeitando minha generosidade

Conto miríades de minutos para ser enganado
Banho-me num oceano etílico para voltar à sobriedade
Purifico meus pulmões com seguidos charutos

Sim, frio. Temo a ressaca de um bom enredo
Preciso de arrogância para ser respeitoso
Dou agora o gole final do meu leite azedo.

Ventre

Vejo novos pais. Amigos, familiares, familiares de familiares... 
Sou pai desde 06/05/2007 - meu filho era bem pequeno, um bebê, quando eu e sua mãe nos separamos. Mas pude vivenciar tudo o que poderia ter vivenciado. Sim, passei madrugadas embalando carrinho com as pernas, preparando mamadeira, trocando fraldas... Sozinhos (eu estava afastado de minha família na época), eu e ele (e uma cachorrada de mais ou menos 9 componentes). Não tive o azar dos que cujas ex-mulheres fazem do filho um meio de chantagear, castigar. Sempre pude estar por perto, e estive. Estou. 
Que os novos pais permaneçam perto das mães, mas se não der: seja um pouco ela. Cuide sozinho, combine, alterne noites... Passa rápido, muito.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Contradições Quarentenárias

O orgulho: de nunca ter entrelaçado corpos sem beijos, de nunca ter pago por sexo, de nunca ter dito "eu te amo" sem ao menos achar que era verdadeiro.
Engraçado, sou mais homem quando menos macho - e bicho quando mais penso.
Como já disse em outro texto: sou capaz de até mesmo ser eu.

domingo, 6 de julho de 2014

Radiografia 3x4

Ele chora... Advento feliz de uma paradoxal descoberta própria feita por outra mente.
Dor, medo, muito medo..., incapacidade e ocasos exponenciais não são o que para o nascer da salgada gota, a primeira da maré emotiva que inunda sua face, faltam; era necessária a não-metafísica: o que faltava eram palavras, capazes palavras.
Existencialmente radiografado, foi revelado à revelia, que, sem perceber, implorava.
Renuncia a morte renunciando a vida...
Que bom entristecer com a felicidade de este verbo ter nascido de duas das mais raras e, a ele, amadas bençãos: verdadeira amizade e palavras.
Chorando ele vê até a mocidade perdida.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Hoje Morreria

Onírico, desejo mais poético que o substantivo, sonho, que o relativiza, cria. 
Sim, a alma cicatrizada somada a uma chaga física que está a impossibilitar meu suor lacrimoso - é pelo esporte, pelo empenho, pela raça..., é salgando minha carcaça, até bonita, que "serotonizo" a dor que eu, logo eu - que fui obrigado a ser eu, escondo do mundo: a solidão anda mais compulsória do que deveria. Um afeto, sim - eu quero; mas não queria sabê-lo líquido - como foram os meus e os do resto do mundo - efemeridade... Dias modernos não obrigam mais as pessoas que se amaram a permanecer juntas. Eu quero nascer no passado: cortejar, sorrir, dar as mãos, ser cavalheiro, caminhar de braços dados, fazer de minha paixão minha senhora - dar meu nome. Perecer corporalmente juntos, como foi afetivamente. Fazer o milagre de uma pessoa não mais amada ser indispensável a minha existência. Quero chorar - a secura empoeirada abaixo dos meus olhos já "descromatizam" o belo para cujo já estou quase cego. A poesia dói, algumas saudades surgem, a arte alimenta quem hoje é quem mais temo, arqui-inimigo: minha sensibilidade. À dor da pele.