terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sim

"Sonhos finitos, é a vida um milagre efêmero. Uma batalha sem sentido, posto que sempre perdida - o fim, cedo ou tarde, é escatologia. Tapeia-se a morte, persuadi-se – mas morte é espelho. E é justamente por isso que se deve dar sentido a cada segundo, por mais medíocre e procrastinador que pareça. Se minha existência é um sopro do acaso, só me resta envasá-lo em frascos sortidos de paz – pequenos, aliás.
Para cada gota de bom momento há um oceano de mazelas, o que acaba (deveria) por valorizá-las. Otimismo é o deus da infelicidade, projeta utopias como possibilidades; resignação é compreensão, compreender é valorizar"

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Fermata

Eis você, algoz de minha abulia. Horas longas, aparentemente contadas para trás, açoitam os alongados cotidianos quando não perto de ti - permitem o idílio apenas por meio de palavras escritas, com olhos foscos e secos. Refratário, escondo da vida a falta que você me faz. A cada chegada nasce a euforia do reencontro recoberta de mazelas futuras, chagas reticentes que vislumbram o ardor de um simples até logo. O silêncio que a vida prática implica, mesmo vivendo poucas horas, amedronta e arranha toda a segurança que o tal de amor edifica – lúgubre, comparo cada fragmento do cronos sem você com o exaurir de tua existência. Dos pueris apelidos que atribuímos às mais íntimas parte de nossos corpos nascem personagens simbióticos que, por assim ser, inevitavelmente precisam estar próximos. Deitas em meu ombro a léguas de distância, com cheiro, calor e lascívia inconfundível – estás aqui só quando longe; pois de perto tu me és.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Uni

Dentre as improváveis realidades, nada é tão inverossímil como tua morte em mim. Sedento de tua saliva e faminto de teu corpo, norteio um futuro mais presente que o agora; cri que amaldiçoei o mais abençoado dos meus dias, aquele em que a conheci – foi das minhas mentiras a mais infame e genuína. Que culpa tens acerca do galope cardíaco que invade uma mera e trivial lembrança, uma pequena toalha suja de amor, que seja? Não, tua única e absoluta culpa é a de não permitir que qualquer momento seja singelo e banal, eterizas todas as coisas. Perdendo-me nos segundos que quando longe de ti tornam-se robustos e nada plácidos, encontro-me na alegria de que cedo ou tarde simplesmente estaremos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Hiena Consciente

Se é para ressurgir das cinzas, que seja eu. Flagelos sistemáticos não me interessam, a ida de um amor só tortura quando sua volta é possível. Hoje, deleito-me na satisfação de nada poder fazer em relação a nós; mais ainda na de quase tudo poder fazer por mim. Vejo o início do calendário como uma oportunidade única de aproximar-me de quem sou, não preciso afastar-te, isso fazes com maestria. Quanto ao mundo vil, posso ser mais e gargalhar sobre sua carcaça. Em frente.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Tédio

Ele foi. Roberto era avesso a foguetórios e abraços falsos, amava o que chamava de família desde que a distância. A chuva que tanto pediu não veio, o céu enluarado corroborava a afetação que preferia evitar; precisava... Mas ele foi. O porco de olhos verdes assado sobre a mesa manteve um olhar alegre tão improvável quanto o carinho distribuído pelos festejantes - a maçã grosseiramente enfiada na boca nada tinha de pecado, muito menos de original. Havia mais de uma hora para as felicitações e elas já causavam comichões em suas tripas - correr era uma hipótese mais provável a cada minuto. Mas ele foi e ficou. A cerveja embriagava bem menos que o de costume, menos até do que as patéticas e engorduradas rabanadas. E chegou a meia noite, trouxe com ela corpos suados compulsivos por abraços e palavras inócuas - um "vai tomar no cu" brotara em sua testa, mas com jeitinho o disfarçara. De que adianta um ano acabar se outro começará? Começou. Será que ele vai?

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Pecado

Antropológica e religiosamente falando, para cometermos um pecado precisamos estar livres. Começarei com um exemplo extremo: o suicídio. Uma pessoa zerada de serotonina está livre? Claro que não! Por isso admiro o filósofo Fábio de Melo – ele analisa qualquer questão contextualizando-a com as Medicina, Psicologia e Antropologia. Assisti a um discurso dele sobre a “danação eterna” de quem se mata – claro que ele elucidou que se trata de uma extrema bobagem; mas como “pecado” não é algo que muito me preocupa, trocarei a palavra por “culpa”. Um viciado (depois de ser consumido pelo vício, pois ele estava livre dele antes do mesmo) em crack é uma pessoa livre? Ele é culpado por qualquer besteira que venha a fazer? Já adianto que, a partir daqui, este texto não traz respostas, só mais perguntas (ou, se preferir – eu prefiro, “provocações”). Depois de bêbado, um homem é livre para decidir se vai dirigir ou não? Ah!, vão dizer, ele era livre para não beber. Era? Um esquizofrênico que foge da clínica e mata uma pessoa é culpado? Uma resposta empírica e plenamente absoluta: a médica dele, não (Folha de São Paulo – 20/12/2012). Alguns de hermenêutica equivocada vão dizer que estou defendendo criminosos; não – estou defendendo a Filosofia que tanto respeito. De Sócrates até aqui, a poucas respostas chegamos – isso é o que faz com que os pensantes não entrem em extinção; minha existência, breve por mais longa que seja, não trará respostas, mas vai provocar muitas outras existências e adiará o suicídio da inteligência.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Nossa (?) Língua

Glosemos (não pense besteira) sobre um tema que distancia bons de ótimos textos – um pobre vocabulário ativo. Sumariamente, elucido que vocabulário ativo é o que usamos ativamente, escrevendo; o passivo é aquele que lemos e entendemos, porém não usamos na ativa. Para se escrever bem é inevitável as criatividade e boas leituras – complicado enriquecer seu vocabulário lendo “Crepúsculo”; mas há algo que não pode, de forma alguma, faltar quando estamos com um livro de peso em mãos: um dicionário (de preferência de papel); a nossa língua nos engana amiúde, você lê uma palavra desconhecida e crê que a entendeu. De nada adianta escrever um texto com rebuscado vocabulário, mas sem sentido algum; disfemismo: escrever merda. Peço aos talentosos que não tenham preguiça e, humildemente, pesquisem o que venham a não entender – o mundo é sujo, que a Arte seja limpa.