quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Deleite

São meus sonhos, quando desperto, tão ou mais surreais; meus velados desejos os mais explícitos em meus atos. Ou o avesso disso tudo. Saber-me incompleto cabal, enxergar a plenitude na insignificância - eis tesão em não haver diferenças entre mim, entre todos nós e a mosca que orbita o que já digeri. Que paz, sem mim ou sem qualquer um a Vida é a mesma; até mesmo sem vida. Existências que realmente usufruem a nossa cabem em uma das mãos - e elas se vão. E ela, ou Ela, nem debocha. Equânime, dou sentido a cada insignificante minuto de minha estada, só eu o posso - por mais supérflua que esta seja aos olhos da Vida.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Novela

"E querendo que o mundo acompanhe tua vida, nem mesmo você a acompanha." Fotografias são ferramentas extraordinárias, imortalizam pessoas e momentos queridos. Mas um doentio exagero tomou conta dos "instagramers". Brincar de fotógrafo é muito divertido, mais ainda podendo publicar as imagens para que os amigos vejam - mas quando o número de fotos é maior que o de minutos vividos na ocasião (passeios, festas, etc.), já deixou de ser salutar, não? Claro que essa equação é de um número exagerado (nem sempre), mas o fato é que as pessoas estão trocando a vida real e suas delícias pelo personagem, geralmente feliz, que interpretam. Esquizofrenia digital - já pegou.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Incompatibilidade

És o mais belo esboço de um amor, nada mais. O Quase é onipresente em nossos encontros; e a Paz, nos desencontros. Irônico, o Acaso debocha, fecunda a saudade quando próximos e o contentamento só de longe. O vil milagre de não seres quem és torna-te uma mentira - coalha qualquer esperança que flua. Não deixes de não ser você, assim prefiro-te distante.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Grude

Ainda não tenho, nem nunca terei, cabais certezas acerca dos rompimentos de relacionamentos afetivos, poeticamente: do êxodo do amor. Porém tenho conhecimento, mesmo por própria experiência, de uma causa poderosa – o aborto da solidão individual. Ninguém, sim – ninguém!, nem mesmo os mais afetados e patologicamente carentes são capazes (leia-se “suportariam”) viver sem momentos de deserto físico e espiritual; o filósofo (e padre) Fábio de Melo é assertivo e acertante quando diz “Deus me livre de não ter meus momentos de solidão”. Quando um parceiro(a) aceitar (duvido) a frase “Amor, hoje eu preciso ficar sozinho” sem forjar crises de insegurança e ciúme, assim respeitando a individualidade e a melancolia que, também, nos alimentam – é grande a chance de fortalecer seus laços para com o solicitante. É insuportável a “obrigação de querer estar sempre perto” - é asfixiante e irritante. Erroneamente, as pessoas sequestram umas às outras. Concordo que quem ama quer estar perto, mas sem descanso o amor infarta.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Fatura

Únicos e definitivos, acerca do amor e da morte não adquire-se experiência. Mas venho aqui glosar sobre relacionamentos, que, ungidos de amor ou não, são inevitavelmente complexos e massacrantes. Não é segredo que para que haja harmonia precisemos amputar fragmentos idiossincráticos, mas poucos vislumbram o preço que o ego cobrará por tal automutilação. E, perdoem-me esta aparente digressão, intelectuais são péssimos amantes, posto que qualquer dúvida sobre seus sentimentos ou visões de vida ferem o orgulho que nutrimos [essa silepse nasce do fato de eu (in)feliz e sem modéstia considerar-me como tal). O autoconhecimento, embora clichê, é eficaz (leia-se como "única forma"); doar-se é bonito e bom, mas uma equação para definir até onde é imprescindível. Ou quem pagará o preço é quem está ao teu lado.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sim

"Sonhos finitos, é a vida um milagre efêmero. Uma batalha sem sentido, posto que sempre perdida - o fim, cedo ou tarde, é escatologia. Tapeia-se a morte, persuadi-se – mas morte é espelho. E é justamente por isso que se deve dar sentido a cada segundo, por mais medíocre e procrastinador que pareça. Se minha existência é um sopro do acaso, só me resta envasá-lo em frascos sortidos de paz – pequenos, aliás.
Para cada gota de bom momento há um oceano de mazelas, o que acaba (deveria) por valorizá-las. Otimismo é o deus da infelicidade, projeta utopias como possibilidades; resignação é compreensão, compreender é valorizar"

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Fermata

Eis você, algoz de minha abulia. Horas longas, aparentemente contadas para trás, açoitam os alongados cotidianos quando não perto de ti - permitem o idílio apenas por meio de palavras escritas, com olhos foscos e secos. Refratário, escondo da vida a falta que você me faz. A cada chegada nasce a euforia do reencontro recoberta de mazelas futuras, chagas reticentes que vislumbram o ardor de um simples até logo. O silêncio que a vida prática implica, mesmo vivendo poucas horas, amedronta e arranha toda a segurança que o tal de amor edifica – lúgubre, comparo cada fragmento do cronos sem você com o exaurir de tua existência. Dos pueris apelidos que atribuímos às mais íntimas parte de nossos corpos nascem personagens simbióticos que, por assim ser, inevitavelmente precisam estar próximos. Deitas em meu ombro a léguas de distância, com cheiro, calor e lascívia inconfundível – estás aqui só quando longe; pois de perto tu me és.