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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Anjo


Eu, meu irmão e meus dois primos carregamos o caixão do nosso primo mais novo. Ele era o mais generoso, mais inteligente e mais humilde,
Se existisse justiça, ele seria o último dessa geração a partir, mas sabemos que não existe justiça, injustiça, sentido, falta de sentido, bem ou mau. Depois da criação, o nosso deus é o acaso.
Vinham ele e mais três amigo de uma festa de casamento, uma coxinha a mais a comer ou um abraço de despedida a mais antes de entrarem no carro poderia mudar todo o final da história.
Até mesmo uma garrafa de cerveja a mais, essa mesma que acabou com todo o juízo e todo o reflexo desse desgraçado* motorista, poderia mudar esse enredo. Não procuremos explicação, não há.
O que quero aqui é dizer que meu primo nos fará muita falta, e que sofro muito em dois níveis: o primeiro é pela ausência permanente de um cara tão divertido e bom, e o segundo é por ver todos os que amo sofrerem essa mesma dor.
Não foi à toa que vieram tantos amigos de muito longe pra prestar a última homenagem com seu corpo presente, uma pessoa perfeita inevitavelmente é muito amada.
Sei que minha família vai se unir e proteger ainda mais, assim sinto um alívio: a morte desse anjo não será em vão.

*Leiam a tréplica.


Tréplica:

Rafael, também pela dor que o Luiz André, que nem conheço - mas sei do amor que ele e o Léo tinham um pelo outro, que digo no texto a palavra "desgraçado". Foi exatamente por sentir que ele não terá mais paz que eu disse que ele foi um "desgraçado". Não tenho nada contra ninguém. Muito pelo contrário, fico feliz de meu primo ter amigos tão ligados. O Léo os amava, sei disso. Muito se fala nesse amor nas nossas reuniões familiares pós acidente. Se uma pessoa que daria a vida por alguém que morreu não é "desprovido de graça", não mais sei quem seria. Pra você entender melhor: tenho certeza de que não há ninguém mais desprovida de graça do que minha tia Ruth nesse momento.


Lucas, não, não. Você me entendeu errado. Quando disse "desgraçado" quis dizer "infeliz", "desprovido de graça naquele instante", você não sabe, mas por conta de pré julgamentos de algumas pessoas defendi muito vcs três que estavam no carro. Ninguém é culpado. Releia e leve ao pé da letra o que escrevi e saiba que não estou com raiva. Só triste.

Adeus, primo.