Sua graça era João, menino questionador desde sua ínfima pequenez de raciocínio.
Tinha como pais pessoas antônimas: um pai artista, talentoso pintor; uma mãe belíssima, porém de poucos planos emancipadores. Herdara a beleza da mãe e a veia artística de seu pai, sintomas que, várias feitas, preocupavam seu amante provedor. Homem culto e experiente, sabia que da inteligência viriam miríades de sofrimentos, mas como desejar que um filho seja “feliz” sendo uma pedra burra?
Abraçado em seu Ser, esse homem parou e olhou, com muita calma, para esse menino na tentativa de amputar qualquer sentimento egóico* (que nasce de pensamentos) que pudesse nublar suas observações. Conseguiu.
Com um contido orgulho começou a ajudar na lapidação desses talentos intrínsecos à alma desse pequeno ser. João, embora nada soubesse da tão complexa língua portuguesa, abraçava livros e era muito feliz nas histórias que criava baseado apenas nas coloridas figuras de praxe em livros infantis; era engraçado e emocionante o fato dos personagens serem homônimos aos seus queridos familiares.
Não demorou a se interessar pelas cores em que seu pai tanto se empenhava, e com apoio e carinho começou com suas primeiras lambanças pinceladas. Decepcionantes de início, mas que foram mostrando-se fortes, intensas e únicas, fazendo brotar lágrimas de orgulho e resignação de seu experiente responsável.
Jorge, seu pai, quimerista como só, perdeu muitos membros do “corpo da alma” amputados na guerra contra a alienação, infelizmente exigida para se sobreviver “em paz” nos dias atuais. Sua vida era uma colcha de retalhos, costurada assimetricamente com farrapos de tecidos que foram bons e maus momentos vividos. Sabia o que esperava por João, e pior: o que João não esperava.
Mas faz parte do ego (o que pensamos que somos) querer proteger a cria, o que se trata até de egoísmo, pois para teu pai era o sofrimento que dava o mínimo de sentido à vida; não essa “mania de felicidade” que cega e emburrece.
Nessa filosofia continuou com seus ensinamentos, ou melhor: com a lapidação.
Mostrou que virtudes nascem da guerra contra os vícios, que não é da natureza humana ser bom. Pra ser generoso, João travaria inúmeras guerras contra o egoísmo, por exemplo. Mas havia necessidade de “calibrar” todo talento e conhecimento com a vida prática, coisa que Jorge só aprendeu depois de velho, mas não seria assim com João. Estudar era preciso, embora seja explícito que o ensino contemporâneo não traria conhecimento (leia como “sabedoria”) pra ninguém, uma selva de pedra estava pronta para recebe-lo. Missão nada fácil, não é simples domar a alma de um artista, e sua responsabilidade de pai exigia.
Feito o que precisava ser feito, com muito suor (principalmente da parte de Jorge) João era um homem “pronto” (alguém está pronto?) para o mundo, foi-lhe concedido o poder de decidir sobre teus rumos, mesmo por que “preparado” estava física, neurológica e emocionalmente. Jorge sabia que um olhar é como um abraço mais amplo, e os horizontes de João só viriam a aumentar.
Certa manhã, bem cedinho, Jorge vira teu filho terminar de arrumar o cabelo, ajeitar o colarinho e parar na porta esperando um beijo, esse que recebeu em sua testa antes de virar as costas e sair caminhando com uma pasta na mão. Com um breve sorriso Jorge fecha a porta e se pergunta aliviado “E agora, João?.”
Rodrigo Marucco
* Termo informal usado por alguns escritores que de forma não erudita estudam a “consciência”.
Partir da mediocridade ao conhecimento não mais é oportunidade, é dever.
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Corra
Hoje, a querida e talentosa Renata Lopes perguntou-me num de nossos papos que já viraram frequentes no messenger se eu havia deixado a Música. Respondi que não.
Nesse mundo em que vivemos, o talento pode ser um Karma, uma chaga herdada não sei de onde ou mesmo um acidente como, às vezes acredito, o modo que deu-se a nossa origem. Devo dizer que estou especificamente falando sobre o talento artístico.
A arte como vocação intensa pode atrasar o que deveria ser feito em série, sem pensar. Estudar, por exemplo: quantos artistas abandonam os estudos ou pausam-nos por acreditar piamente em seu talento e, pior, nos louros que colheriam por conta do mesmo?
Nas raras vezes em que se é bem sucedido, passa-se a ter uma vida interessante e rica em idéias, mas não feliz, felicidade absoluta não existe, muito menos na alma de um artista, que é suprida por solidões e vazios corrosivos à qualquer pessoa “comum”.
Não sou contra a arte, sou contra o mundo, e o mundo, infelizmente, é muito maior que ela. Conheço homens de quarenta anos que vivem como zumbis por terem apostado todos os seus mais dinâmicos anos de vida em uma vida quase utópica, não saberia dizer em porcentagem o número de artistas que se realizam profissionalmente. Hoje, esses homens de quarenta (ou mais) não têm condições nem para o básico (“básico” de um artista é bem mais que o de praxe), têm a casa cheia de livros, mas não pagam a pensão de seus filhos há tempos; têm a cabeça cheia de idéias, mas não têm “rúpias” para pô-las em prática; têm um vasto conhecimento, mas tratados são feito “vagabundos”. Triste a vida de um artista que resolveu viver de sua arte. Hoje trabalho numa empresa de Escolta e Vigilância Armada, eu, que a única arma que empunhei a vida toda fora um piano. Uma miríade de livros, também. Frustrado? Nem um pouco!!!
Aliviado e tranqüilo por ter tido tempo de ter uma vida digna e dar o mesmo a meu filho.
É óbvio que nunca largarei as teclas e os sons maravilhosos que se formam quando essas são somadas às minha mãos, mas agora eu só toco por lazer ou por um dinheirinho a mais pra cerveja.
Conselho aos talentosos: mergulhem de cabeça nos estudos de sua arte, mas faça o mesmo com os estudos burocráticos que a vida medíocre exige.
Nesse mundo em que vivemos, o talento pode ser um Karma, uma chaga herdada não sei de onde ou mesmo um acidente como, às vezes acredito, o modo que deu-se a nossa origem. Devo dizer que estou especificamente falando sobre o talento artístico.
A arte como vocação intensa pode atrasar o que deveria ser feito em série, sem pensar. Estudar, por exemplo: quantos artistas abandonam os estudos ou pausam-nos por acreditar piamente em seu talento e, pior, nos louros que colheriam por conta do mesmo?
Nas raras vezes em que se é bem sucedido, passa-se a ter uma vida interessante e rica em idéias, mas não feliz, felicidade absoluta não existe, muito menos na alma de um artista, que é suprida por solidões e vazios corrosivos à qualquer pessoa “comum”.
Não sou contra a arte, sou contra o mundo, e o mundo, infelizmente, é muito maior que ela. Conheço homens de quarenta anos que vivem como zumbis por terem apostado todos os seus mais dinâmicos anos de vida em uma vida quase utópica, não saberia dizer em porcentagem o número de artistas que se realizam profissionalmente. Hoje, esses homens de quarenta (ou mais) não têm condições nem para o básico (“básico” de um artista é bem mais que o de praxe), têm a casa cheia de livros, mas não pagam a pensão de seus filhos há tempos; têm a cabeça cheia de idéias, mas não têm “rúpias” para pô-las em prática; têm um vasto conhecimento, mas tratados são feito “vagabundos”. Triste a vida de um artista que resolveu viver de sua arte. Hoje trabalho numa empresa de Escolta e Vigilância Armada, eu, que a única arma que empunhei a vida toda fora um piano. Uma miríade de livros, também. Frustrado? Nem um pouco!!!
Aliviado e tranqüilo por ter tido tempo de ter uma vida digna e dar o mesmo a meu filho.
É óbvio que nunca largarei as teclas e os sons maravilhosos que se formam quando essas são somadas às minha mãos, mas agora eu só toco por lazer ou por um dinheirinho a mais pra cerveja.
Conselho aos talentosos: mergulhem de cabeça nos estudos de sua arte, mas faça o mesmo com os estudos burocráticos que a vida medíocre exige.
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