segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Bananeira

Poderia tudo ser mais justo, mais bem distribuído; não falo de igualdade - apenas gostaria que a aristocracia prática se baseasse na intelectual: que autômatos não fossem os vitoriosos, que a sociedade fosse membrada como um corpo humano: no topo, a mente. Que gente pequena e bajuladora não alcançasse bons cargos, bons salários; que graduados que nem ao menos falam (nem escrevem) corretamente não ostentassem eminentes diplomas em suas paredes, e queria muito que esses perdessem o sorriso assaz dentado que retrata a superioridade do inferior. Queria um governante à Nietzsche, um professor à Dostoiévski... A arte... Que bom seria se o etéreo fosse o mais valorizado, se os indignos fossem a minoria, que danças epiléticas evoluíssem a admirativas viagens paraplégicas - sentados, de olhos fechados.


Na impossibilidade do que supracitei, desejo algo menos possível ainda: não ser eu

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Mais que dois

Desabitar significados é arremedar a si próprio, é enlevar-se com o cinza.
Pertenças recíprocas (amor), sorrisos banguelas (família): eis o pão. 
O bicho e a gente em convergência, o sofisticado e o singelo homogêneos. 
Serei-me, oferto-me. Somos. E mais.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Blocos

A compleição existencial é homogênea e indissolúvel. Bom seria se fragmentássemos dores e frustrações em searas emocionais: que o desânimo profissional em nada interferisse na segurança afetiva, que a frustração animal, instintiva, não corrompesse o ciclo prático do amar em sociedade, que a impaciência não causasse dores lancinantes. Cada sofrimento deveria ter seu próprio núcleo, estando esse corrompido, bastaria uma quarentena ou legítima mutilação; o sistema emocional que nos envolve é complexo e terrivelmente engrenado. 
Pagamos, nós - os humanos, por um crime que nem existiu. 

Vieses

E pode o que leva trazer-me
Do farto muitos nadas 
Do cruel, pueris sorrisos
Do mel, intensas ferroadas.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Borra de Café

Sedimento, decepções involucram  a alma, cicatrizam simétrica e sutilmente. O perdão cristão é poético, mas não legítimo, não a quem de fato se ama e espera. Com franqueza dirias que olhas para teu algoz perdoado com a mesma confiança e meiguice? Sem reservas inconscientes, sem revestir de aço o afeto.
O perdão prático é sinonimizável à indiferença - o amor potencializa mágoas. 
Como papel amassado, o que sentimos pode até "reflorescer"; mas jamais à mesma forma.   

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Hercúleo

Os olhares traem, denunciam inútil porfia: empenhos em, inocuamente, tentar velar o que até um breve cheiro - intimamente até o mau, entrega em brilhos nada refratários, submissos, pueris. Ou mesmo o papel em manchas rubras, entregando que a soma perigosa de duas vidas ainda está dividida.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Senha

 Dos beijos frugais almejo os ácidos
 Dos pares normais invejo os ócios
 Contradigo o afeto em termos plácidos
 Priorizo o amor vislumbrando os próximos.