Entrei como o costume me ensinou a entrar; só consegui enxergar ao fechar os olhos: as lembranças faziam diáfanas as minhas pálpebras.
O cheiro não estava mais lá, mas senti-lo não foi trabalhoso - a pipoca e os cães sedimentaram seus aromas em minhas memórias.
Ela, minha mãe, concisa em corpo, em contraste com a sabedoria, saudosa e triste - o retorno era motivado por ocaso, doença.
Já não tinha controle sobre meus dedos, esses que compeliam meu salário. Era eu escritor, não desses de livros - os artistas. Escrevia histórias tristes e absurdas de um povo marcado pela violência, pela prisão sem muros em que todos nós nos encontramos.
Mas com meu corpo desenhando-se uma árvore eu não podia mais labutar na delegacia. Meus membros atrofiando me bancaram uma excursão pelo prédio e os ofícios nele realizados - só faltou eu ser "peso-de-porta". Acabou - a doença transformou meus três anos de trabalho em trinta.
Amigos? Não, não... Sumiram todos. Cheguei a minha antiga casa pela gentileza de um desconhecido comprada por uma boa quantia de dinheiro.
Minha mãe não se levantou, coitada: já não o fazia sozinha há mais de meia década; e quem era eu, aquela árvore com galhos sem rumo, para ajudá-la? E um abraço seria no mínimo tragicômico.
Trocamos olhares tristes e felizes; mais felizes que tristes: estávamos juntos e nossos fins eram próximos.
Quem sabe sincronizados?
Partir da mediocridade ao conhecimento não mais é oportunidade, é dever.
terça-feira, 15 de abril de 2014
quarta-feira, 9 de abril de 2014
Vá. E vá indo.
Sabe o que existe além do horizonte? Nada! (Hipótese não-peremptória)
Assistam ao filme "Tapete Vermelho" - há uma cena onde o protagonista diz:
- Não gosto desse negócio de pagar aqui para receber depois.
O sábio usufrui, não busca pertenças, tampouco recompensas. Busque a escritura dos seus significados, e rasgue-a (você pertence a eles, não o contrário). Viva-os - é o que nos resta até morrer. Tenha fé, mas operante, aja.
Não espere intervenção - se Deus é bom, ele não ajuda a poucos e ferra com outros. Pense mais na morte que na vida - assim a vida será mais intensa e deliciosamente tenebrosa. Compartilhe menos e vivencie mais - não deixe o "dever" do registro roubar-te o momento.
Quando caveiras, pouco importarão teus arquivos - o mesmo vale para o que foi vivido; mas vivido foi.
Assistam ao filme "Tapete Vermelho" - há uma cena onde o protagonista diz:
- Não gosto desse negócio de pagar aqui para receber depois.
O sábio usufrui, não busca pertenças, tampouco recompensas. Busque a escritura dos seus significados, e rasgue-a (você pertence a eles, não o contrário). Viva-os - é o que nos resta até morrer. Tenha fé, mas operante, aja.
Não espere intervenção - se Deus é bom, ele não ajuda a poucos e ferra com outros. Pense mais na morte que na vida - assim a vida será mais intensa e deliciosamente tenebrosa. Compartilhe menos e vivencie mais - não deixe o "dever" do registro roubar-te o momento.
Quando caveiras, pouco importarão teus arquivos - o mesmo vale para o que foi vivido; mas vivido foi.
terça-feira, 25 de março de 2014
Desalgeme-se
Gentilezas amiudadas perdem o valor ou tornam-se obrigações.
Faça "tudo" para uma pessoa e o passo seguinte é você se tornar cabal e definitivamente, a ela, incapaz.
Ser atencioso e carinhoso requer cuidado, um pequeno deslize (sutil excesso) endossa o direito de sequestrarem nossa subjetividade.
Faça "tudo" para uma pessoa e o passo seguinte é você se tornar cabal e definitivamente, a ela, incapaz.
Ser atencioso e carinhoso requer cuidado, um pequeno deslize (sutil excesso) endossa o direito de sequestrarem nossa subjetividade.
quarta-feira, 19 de março de 2014
Endócrino
Meu prazer ganhava forma, erigia.
A aspereza arrepiada de tua pele confundia,
teus sussurros elucidavam a nascente.
Não era de frio que tremias.
A aspereza arrepiada de tua pele confundia,
teus sussurros elucidavam a nascente.
Não era de frio que tremias.
quinta-feira, 23 de janeiro de 2014
Repeteco Filosófico
"Felizes (?) os ignorantes, sob a égide do não-conhecer."
É possível considerar a pequenez existencial, em cuja desconhece-se a alegria de ampliar o próprio universo (interior e exterior), a que torna as pessoas afetiva e profissionalmente autômatas, como "felicidade"?
É fácil satisfazer-se conhecendo pouco, mas entre satisfação e felicidade (que claro fique, e explicarei logo abaixo, que não creio na cabal) há léguas.
A felicidade real é a fragmentada, de forma pobre podemos chamar "bons momentos" - e bons momentos são mais frequentes em mentes mais vazias.
Em tempo: Deus me livre de ser feliz.
É possível considerar a pequenez existencial, em cuja desconhece-se a alegria de ampliar o próprio universo (interior e exterior), a que torna as pessoas afetiva e profissionalmente autômatas, como "felicidade"?
É fácil satisfazer-se conhecendo pouco, mas entre satisfação e felicidade (que claro fique, e explicarei logo abaixo, que não creio na cabal) há léguas.
A felicidade real é a fragmentada, de forma pobre podemos chamar "bons momentos" - e bons momentos são mais frequentes em mentes mais vazias.
Em tempo: Deus me livre de ser feliz.
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Bananeira
Poderia tudo ser mais justo, mais bem distribuído; não falo de igualdade - apenas gostaria que a aristocracia prática se baseasse na intelectual: que autômatos não fossem os vitoriosos, que a sociedade fosse membrada como um corpo humano: no topo, a mente. Que gente pequena e bajuladora não alcançasse bons cargos, bons salários; que graduados que nem ao menos falam (nem escrevem) corretamente não ostentassem eminentes diplomas em suas paredes, e queria muito que esses perdessem o sorriso assaz dentado que retrata a superioridade do inferior. Queria um governante à Nietzsche, um professor à Dostoiévski... A arte... Que bom seria se o etéreo fosse o mais valorizado, se os indignos fossem a minoria, que danças epiléticas evoluíssem a admirativas viagens paraplégicas - sentados, de olhos fechados.
Na impossibilidade do que supracitei, desejo algo menos possível ainda: não ser eu
Na impossibilidade do que supracitei, desejo algo menos possível ainda: não ser eu
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Mais que dois
Desabitar significados é arremedar a si próprio, é enlevar-se com o cinza.
Pertenças recíprocas (amor), sorrisos banguelas (família): eis o pão.
O bicho e a gente em convergência, o sofisticado e o singelo homogêneos.
Serei-me, oferto-me. Somos. E mais.
Pertenças recíprocas (amor), sorrisos banguelas (família): eis o pão.
O bicho e a gente em convergência, o sofisticado e o singelo homogêneos.
Serei-me, oferto-me. Somos. E mais.
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