domingo, 20 de abril de 2014

Forca

Já era invejante o grave câncer - patologias lúdicas já haviam lhe empanturrado. Até quando aguentaria o dia próximo, esses amanhãs involuídos a ontem?
O corpo em perfeito funcionamento - exames vários esfregavam-lhe na fuça; as viagens fartas em quilômetros e riscos de cujas saía intacto geravam amiudadas decepções.
O sentimento de inadequação terrena corroía, mas só a alma. Se a doença do espírito não se esparrama pelo corpo, de nada serve.
Já era claro que não haveria um fim, o cabal, sem agir - mas coragem de protagonizá-lo ativamente não possuía.
Talvez, bêbado e drogado alcançaria essa impavidez - mas nessas horas a vontade era de viver, de não dormir: procrastinar o sono que acabaria com a felicidade química, a única possível.
Suicídio não era compatível com esses momentos.
Resignou-se: viveria muito. Só porque não queria.
E ao fim, décadas vividas compulsoriamente - beirando o sonhado êxodo, percebeu que morto sempre foi.
Sorriu.






terça-feira, 15 de abril de 2014

Fim

Entrei como o costume me ensinou a entrar; só consegui enxergar ao fechar os olhos: as lembranças faziam diáfanas as minhas pálpebras.
O cheiro não estava mais lá, mas senti-lo não foi trabalhoso - a pipoca e os cães sedimentaram seus aromas em minhas memórias.
Ela, minha mãe, concisa em corpo, em contraste com a sabedoria, saudosa e triste - o retorno era motivado por ocaso, doença.
Já não tinha controle sobre meus dedos, esses que compeliam meu salário. Era eu escritor, não desses de livros - os artistas. Escrevia histórias tristes e absurdas de um povo marcado pela violência, pela prisão sem muros em que todos nós nos encontramos.
Mas com meu corpo desenhando-se uma árvore eu não podia mais labutar na delegacia. Meus membros atrofiando me bancaram uma excursão pelo prédio e os ofícios nele realizados - só faltou eu ser "peso-de-porta". Acabou - a doença transformou meus três anos de trabalho em trinta.
Amigos? Não, não... Sumiram todos. Cheguei a minha antiga casa pela gentileza de um desconhecido comprada por uma boa quantia de dinheiro.
Minha mãe não se levantou, coitada: já não o fazia sozinha há mais de meia década; e quem era eu, aquela árvore com galhos sem rumo, para ajudá-la? E um abraço seria no mínimo tragicômico.
Trocamos olhares tristes e felizes; mais felizes que tristes: estávamos juntos e nossos fins eram próximos.
Quem sabe sincronizados?


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Vá. E vá indo.

Sabe o que existe além do horizonte? Nada! (Hipótese não-peremptória)
Assistam ao filme "Tapete Vermelho" - há uma cena onde o protagonista diz: 
- Não gosto desse negócio de pagar aqui para receber depois.
O sábio usufrui, não busca pertenças, tampouco recompensas. Busque a escritura dos seus significados, e rasgue-a (você pertence a eles, não o contrário). Viva-os - é o que nos resta até morrer. Tenha fé, mas operante, aja.
Não espere intervenção - se Deus é bom, ele não ajuda a poucos e ferra com outros. Pense mais na morte que na vida - assim a vida será mais intensa e deliciosamente tenebrosa. Compartilhe menos e vivencie mais - não deixe o "dever" do registro roubar-te o momento.
Quando caveiras, pouco importarão teus arquivos - o mesmo vale para o que foi vivido; mas vivido foi.

terça-feira, 25 de março de 2014

Desalgeme-se

Gentilezas amiudadas perdem o valor ou tornam-se obrigações. 
Faça "tudo" para uma pessoa e o passo seguinte é você se tornar cabal e definitivamente, a ela, incapaz. 
Ser atencioso e carinhoso requer cuidado, um pequeno deslize (sutil excesso) endossa o direito de sequestrarem nossa subjetividade.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Endócrino

Meu prazer ganhava forma, erigia.
A aspereza  arrepiada de tua pele  confundia,
teus sussurros elucidavam a nascente.
Não era de frio que tremias.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Repeteco Filosófico

"Felizes (?) os ignorantes, sob a égide do não-conhecer." 
É possível considerar a pequenez existencial, em cuja desconhece-se a alegria de ampliar o próprio universo (interior e exterior), a que torna as pessoas afetiva e profissionalmente autômatas, como "felicidade"? 
É fácil satisfazer-se conhecendo pouco, mas entre satisfação e felicidade (que claro fique, e explicarei logo abaixo, que não creio na cabal) há léguas. 
A felicidade real é a fragmentada, de forma pobre podemos chamar "bons momentos" - e bons momentos são mais frequentes em mentes mais vazias. 
Em tempo: Deus me livre de ser feliz.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Bananeira

Poderia tudo ser mais justo, mais bem distribuído; não falo de igualdade - apenas gostaria que a aristocracia prática se baseasse na intelectual: que autômatos não fossem os vitoriosos, que a sociedade fosse membrada como um corpo humano: no topo, a mente. Que gente pequena e bajuladora não alcançasse bons cargos, bons salários; que graduados que nem ao menos falam (nem escrevem) corretamente não ostentassem eminentes diplomas em suas paredes, e queria muito que esses perdessem o sorriso assaz dentado que retrata a superioridade do inferior. Queria um governante à Nietzsche, um professor à Dostoiévski... A arte... Que bom seria se o etéreo fosse o mais valorizado, se os indignos fossem a minoria, que danças epiléticas evoluíssem a admirativas viagens paraplégicas - sentados, de olhos fechados.


Na impossibilidade do que supracitei, desejo algo menos possível ainda: não ser eu